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Fruta- Imagens

OS MENINOS E A FRUTA NORMALIZADA

Gosto muito de analogias. É uma forma interessante de ajudar o pensamento a pensar de uma maneira mais divertida. Então pus-me a pensar assim e reparei que o problema dos meninos que dão ”problemas”, é como o problema da fruta normalizada. Descobri que há algumas coisas semelhantes entre a forma como os meninos crescem actualmente e o modo como se trata a fruta. Eu explico-me. A fruta nasce, muito bem agarradinha à árvore. Quase sempre se acoita, algures num cantinho cómodo do tronco, sob a protecção de uma folha que é forte e larga, para se proteger de todos os perigos que possam acontecer.
Dantes, por lá ficava e demorava pelo menos o tempo de duas estações, para crescer e amadurecer bem. Havia um tempo grande de esperar para poder saborear.
Agora, mal a fruta cresce um pouco, vêm os produtores e arrancam-na à força. Encaixotam os pêssegos todos em fila uns contra os outros, e lá seguem para o armazém, que é uma câmara frigorífica.
Só que a fruta ainda está verde.
Depois, as donas de casa vão às compras. Compram. Passados dois ou três dias estão “tocados”. Levaram só uns toques e estragaram-se. Quer dizer, não tinham amadurecido o suficiente para sair da árvore mãe tão cedo e aguentarem-se bem.
E assim andamos todos a reclamar que a fruta para além de não ter gosto, não se aguenta. Estraga-se num instante!
Frenesim da economia?!...
Com os meninos e, quer dizer connosco, não é muito diferente. Se não, vejamos.
Os meninos nascem e muito pouco tempo depois vão para as creches e para os jardins de infância, que são assim uma espécie de armazém, onde ficam às dúzias, vão para crescer e amadurecer à força e onde uma educadora, quando não vigilante, se asfalfa por fazer tudo. E, faz certamente muita coisa. Excepto o mais importante. Conhecer e amar cada menino porque não se pode amar à dúzia.
Assim, ficam perdidos em salas naturalmente barulhentas e apertadas, às vezes em fila, uns contra os outros, para sair ou comer yogurtes, que sempre têm mais proteínas que a açorda de alho e ovo do meu tempo. Por ali andam à toa num “como se fosse escola” que não deve ser, num “como se fosse lar” que também não é.
Frequentemente, ocupam o tempo a treinar “coisa escolares” para crescer e amadurecer à força, para “abrir” inteligência e irem mais bem preparados para a escola, como se imagina erradamente.
Depois... bom, depois vão para a escola. Alguns não sabem quantos anos têm nem qual o dia do seu aniversário. Se estamos no Verão ou no Inverno. Nem tão-pouco onde moram, o que fazem os pais, etc.-“falhas de identidade”, dizem os técnicos.
Porém, estão bonitos, com o “visual” bem cuidado. Têm bom aspecto. Estão normalizados como a fruta.
É ver, no Verão a caminho da praia, as carrinhas cheias deles, de chapéus todos iguais.
Só que, como a fruta, não amadureceram naturalmente.
Daí para a frente, sofrem uns toques da vida e alguns não se aguentam. Estragam-se. Isto é, adoecem. Tal como na fruta, o bichinho começa a minar na semente, quer dizer, na alma. Adoecem da alma para o corpo. De dentro para fora.
Outros... mais fortes, de si próprios, reagem e estrebucham, ou, melhor dizendo. “portam-se mal”. Diz-se então que têm problemas de comportamento!.... Imaturidade estrutural etc., quando não se diz coisa pior.
Será que o frenesim da economia tem alguma coisa a ver com isto, também?....
Pois é, as coisas mudam. Já nada é como dantes, dizem.
Cá para mim, não é bem assim. Pelo menos da forma como se pensa. E isto do crescer e amadurecer, ou, como dizem os técnicos, o processo de separação/individuação, tem muito que se lhe diga.
E entretanto, todos nós de forma geral, ainda hoje, quando vemos passar um jovem, bem crescido, continuamos a dizer: -Que belo pêssego!

autor:Daniel Sampaio
em:“Inventem-se novos pais”




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