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A experiência do parto

Para a mãe e para o bebé, o parto é um momento extremo. Insistiu-se muito, nos discursos sobre o nascimento, acerca da "ruptura". Para nós o parto não é um tempo de ruptura mas sim de transição para um novo modo relacional. Um tempo difícil e indispensável, muitas vezes negligenciado em todos os aspectos, pela nossa sociedade moderna que quer fazer tudo ”depressa e bem”.
Encaramos hoje o parto e o pós-parto como um assunto do corpo e uma questão exclusivamente médica e clínica. Passamos por ele com “aceleradores” químicos e anestesias e programamos o dia porque queremos tudo controlar. Parece que é preciso salvar o bebé da mãe. “Ele já não está aí a fazer nada” é uma frase frequente, que as grávidas ouvem proferir não só à vizinha de cima como ao próprio médico que quer protagonizar o salvamento. Mas o nascimento de um bebé e de uma mãe é muito mais do que um assunto do corpo. E não é, seguramente, uma patologia. Do ponto de vista psicológico, o parto é um momento marcante de rompimento e de renovação.Para quê negar, recusar a realidade física do parto ou ocultar o que ele levanta em cada mulher, em termos de medos e angústias? Dar a vida só pode ser muito impressionante. A violência das contracções uterinas, a potência do momento de expulsão, são para cada mulher, um tempo único, em que ela se confronta com os limites do seu corpo, nos limites da vida e da morte. Na nossa sociedade uniformizada, estandardizada, temos poucas ocasiões para nos confrontarmos connosco próprios, com o sofrimento do nosso corpo, e com os nossos limites. É uma experiência única, excepcional, cuja realidade ultrapassa em muito o problema do sofrimento físico. Mesmo as mulheres que tiveram uma anestesia epidural, e que estiveram protegidas contra a dor, falam do nascimento do seu filho em termos de violência e de choque.
Hoje é normal que as mulheres vivam o parto dos seus filhos como espectadoras e não protagonistas. São infantilizadas e sentem-se assustadas. O sentimento de insegurança no pós-parto, tem muito a ver com a experiência do parto. E ele pode ficar para a vida.
Estamos persuadidos que durante a preparação para o parto,se deveria falar de um outro modo. Deveriamos falar da extraordinária potência do bebé que passa através da mãe, sabendo exactamente o caminho, da violência que sentem e que é portadora de vida, que é preciso abordar a dor sem lutar, aceitar a angústia, renunciar a dominar o seu corpo a todo o custo, viver o momento sabendo que no fim da dor está o bebé, esse bebé que a mãe deixa vir ao mundo, que vai acolher com todas as suas dúvidas e alegrias, as incertezas e os sonhos que caminharam com ela ao longo da gravidez. Este bebé que ela vai reconhecer, tal como o seu pai, para lhe dar um espaço onde ele vai construir a sua vida. Esta intensidade não se apaga em alguns minutos após o nascimento. Claro que “o importante é o bebé está bem”, como tantas vezes se ouve dizer. Mas que a mãe esteja bem não é menos importante. Por isso, temos uma palavra a dizer sobre o parto: questione procedimentos desnecessários e procure beneficiar do “coktail” natural de hormonas, que um parto natural oferece e que terão muitos benefícios também no pós-parto.

Após o parto...

A mãe permanece transformada, ao longo de várias semanas. Haverá os momentos de euforia e os momentos de esgotamento, os momentos de angústia e os de calma, a paixão total pelo bebé, e os momentos de rejeição, o orgulho fantástico de ser mãe e a vontade de tudo abandonar, de nunca ter vivido nada daquilo.
Uma extrema sensibilidade torna a mãe mais aberta a este encontro, mais apta a compreender as necessidades do bebé, mais reactiva aos seus pedidos, mas também mais próxima das lágrimas e do desencorajamento.
Esta sensibilidade à flor da pele, este aparente desequilíbrio, estas alternâncias de felicidade e de tristeza são necessárias para o bebé, necessárias à relação que se constrói entre ele e ela. È disto que tem de se falar durante a Preparação para o parto, deste período de readaptação a si mesma, da aproximação ao bebé, e da dificuldade que há em sentir-se “em crise” num momento em que toda a gente acredita que somos “a mais feliz das mulheres a pisar o planeta”?

O aleitamento materno

Desejar, conceber, carregar nove longos meses no seu ventre um pequeno bebé, vê-lo nascer de si, é uma das mais belas aventuras que uma mulher pode viver. Amamentá-lo, é prosseguir com ele uma relação única e privilegiada para lá dos gestos, das palavras, na qual os corpos mantêm o seu lugar: corpo de criança programada para esta procura, da qual receberá de um modo fiel e adaptado, os elementos de construção da sua matéria viva. Corpo de mãe enormemente transformado pelo e para o seu bebé, assegurando-lhe a nutrição perfeita no seu ninho uterino, nutrição ideal ao longo dos meses após o nascimento. Troca verdadeira na qual a doação do leite da mãe à criança se acompanha com a doação da criança para a sua mãe, de um equilíbrio hormonal e neuro-endócrino precioso. Não existe nenhuma ruptura entre o tempo de antes e aquele de depois do nascimento. A maternidade, essa imensa arte feminina, pode viver-se e gozar-se numa maravilhosa continuidade.


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